domingo, 19 de julho de 2015

"É difícil a ideia de que, nos anos que ainda estiver por cá, vou ter de caminhar sem eles."

Dito por Maria Rueff em entrevista ao jornal i e por mim, já há muitos anos. Sempre ouvi todo o tipo de clichés sobre a morte e o luto. Talvez por isso, os meus lutos sejam tão estranhos, porque não vão em clichés. A saudade, a falta, os natais, os aniversários, tudo isso não interessa assim muito. O chorar em cima das urnas, nas campas... havia tanto a dizer sobre o choro e sobre o que se passa quando ele não acontece. Mas o que sempre disse foi que achava que o mais difícil não era a espera, a perda, o choro. Era o depois. E por depois, não me refiro ao velório, ao funeral, e às exéquias todas que se seguem e que nunca mais acabam enquanto a pessoa perdurar na memória de quem tocava de alguma forma. Isso até se passa bem, lembro-me inclusivamente de dar comigo a rir em várias dessas ocasiões. Curiosamente, não me lembro de chorar. E tenho quase a certeza que não o fiz. Essa fase tão dolorosa, a que eu chamo "depois" são aqueles dias em que, do nada, vem uma lembrança. Sem avisar, sem dar tempo de me preparar como faço nos tais natais e aniversários. Aí, já sei que vai custar e, como já estou a contar, não custa tanto. E é nesses dias que se vislumbra o depois. Os anos que ainda faltam, os natais que ainda temos de gramar, os momentos em que temos de fingir que estamos felizes e que... (ai vem cliché), a vida continua. É mesmo difícil fingir que a vida continua.

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