segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Tiraste-me as palavras das mãos...

Ilusão

Queria ter-te aqui
Para te contar os meus problemas,
Mas tu és apenas uma ilusão.
Adoraria contar-te os meus segredos
Pois sei que tu me compreenderias,
Mas tu não estás aqui.
Gostaria de contar-te os meus medos
E os meus desejos e planos para o futuro,
Mas tu não ouves.
Queria a tua ajuda
E os teus conselhos,
Mas tu não falas.
Apenas queria a tua presença aqui,
Mas tu és apenas um sonho
Que desaparecerá quando eu acordar.

1993

In "Poemas", de Luísa Matos

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Hoje

Tenho uma relação indisciplinada com o meu choro.
Não sei quem é mais indisciplinado: eu ou ele.
Mas nem sempre foi assim. Dantes, tinha controlo sobre isso. Não quero dizer que só chorava quando queria. Não, isso nunca consegui fazer. Mas sabia que, se dissesse isto ou aquilo, ia chorar. E então, podia optar.
Hoje, não. E é chato.
Particularmente chato, quando se está na consulta de oftalmologia e finalmente se dá com um médico com tomates para dizer "Se calhar, está na altura de pensarmos em tirar o olho". E nós, claro, mantemos aquilo que eu chamo "posição de soldado". Com a maior frieza, começamos a debitar termos como "neuropatia" e Traztuzomab", para o médico ver que até somos filhas informadas e muito envolvidas no processo todo. "Não é uma cirurgia simples, mas faz-se. Depois, põe-se uma prótese e fica impecável."
E é aí que, do alto da mais perfeita "posição de soldado", fazemos friamente a pergunta "E consegue-se acertar com a cor? É que ela tem uns olhos tão bonitos..."
E, pimba!
Mas que grande merda, não estava nada à espera disto.
Ninguém me avisou que se perguntasse isto, ia começar a chorar.

domingo, 19 de julho de 2015

Uma gaja sabe que está há 4 dias sem tomar Prozac, quando...

. o corpo começa a "rejeitar" as unhas de gel, se entra em desespero e se desenvolve uma fixação por nos vermos livres delas e nunca mais nos metermos em coisas cancerígenas...
. começamos a achar que estamos mesmo, mesmo  a precisar de um pixie cut...


. acordamos e pensámos: "que dia é hoje? sábado. mas dia do mês? 18. 18 de julho. o Hugo faz anos, se calhar vou-lhe mandar uma mensagem. não, vou-lhe ligar. nunca mais me esqueço que ele ligou, quando o meu pai morreu. tenho sido uma merda de amiga para eles, coitados. para eles e para toda a gente, vá. nunca ligo a ninguém. podia tê-los ajudado mais. passaram tanto com o miúdo. devia falar com eles mais vezes."

"É difícil a ideia de que, nos anos que ainda estiver por cá, vou ter de caminhar sem eles."

Dito por Maria Rueff em entrevista ao jornal i e por mim, já há muitos anos. Sempre ouvi todo o tipo de clichés sobre a morte e o luto. Talvez por isso, os meus lutos sejam tão estranhos, porque não vão em clichés. A saudade, a falta, os natais, os aniversários, tudo isso não interessa assim muito. O chorar em cima das urnas, nas campas... havia tanto a dizer sobre o choro e sobre o que se passa quando ele não acontece. Mas o que sempre disse foi que achava que o mais difícil não era a espera, a perda, o choro. Era o depois. E por depois, não me refiro ao velório, ao funeral, e às exéquias todas que se seguem e que nunca mais acabam enquanto a pessoa perdurar na memória de quem tocava de alguma forma. Isso até se passa bem, lembro-me inclusivamente de dar comigo a rir em várias dessas ocasiões. Curiosamente, não me lembro de chorar. E tenho quase a certeza que não o fiz. Essa fase tão dolorosa, a que eu chamo "depois" são aqueles dias em que, do nada, vem uma lembrança. Sem avisar, sem dar tempo de me preparar como faço nos tais natais e aniversários. Aí, já sei que vai custar e, como já estou a contar, não custa tanto. E é nesses dias que se vislumbra o depois. Os anos que ainda faltam, os natais que ainda temos de gramar, os momentos em que temos de fingir que estamos felizes e que... (ai vem cliché), a vida continua. É mesmo difícil fingir que a vida continua.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

terça-feira, 14 de julho de 2015